Marcello José Abbud, referência em tecnologias inovadoras para tratamento de resíduos sólidos urbanos, frisa que, diante das transformações recentes nas políticas de saneamento básico no Brasil, um segmento permanece sistematicamente à margem dos avanços: as comunidades rurais isoladas, populações ribeirinhas, assentamentos e aldeias indígenas que não contam com sistemas convencionais de coleta e destinação de resíduos sólidos.
O desafio da gestão de resíduos nessas localidades exige abordagens radicalmente diferentes das soluções urbanas, adaptadas às condições geográficas, culturais e operacionais de cada território.
Convidamos você a conhecer mais sobre as tecnologias, experiências e políticas que estão abrindo caminhos concretos para essas populações. Confira!
A dimensão do problema nas áreas rurais e ribeirinhas
O Brasil possui milhares de comunidades rurais e ribeirinhas espalhadas por biomas como Amazônia, Cerrado, Pantanal e Caatinga, muitas delas acessíveis apenas por via fluvial ou por estradas precárias que se tornam intransitáveis em períodos de chuva. A ausência de coleta regular de resíduos nessas localidades resulta em práticas de queima a céu aberto, descarte em corpos d’água e acumulação de lixo nas proximidades das habitações, com consequências diretas para a saúde das populações e para a integridade dos ecossistemas locais.
Conforme pondera Marcello José Abbud, o problema nessas comunidades não é apenas de infraestrutura, mas de modelo. Pois, ao transportar resíduos por longas distâncias até aterros sanitários distantes, é logisticamente inviável e economicamente insustentável para a maior parte dos municípios que atendem essas populações. Diante disso, a solução precisa estar no próprio território, com tecnologias e práticas capazes de tratar os resíduos localmente, reduzindo ao mínimo o volume que precisa ser removido.
Tecnologias adaptadas à escala e às condições locais
A gestão de resíduos em comunidades isoladas demanda soluções de baixa complexidade operacional, alto grau de robustez e manutenção acessível com recursos e conhecimentos locais. Na prática, a compostagem de resíduos orgânicos é uma das alternativas mais adequadas para comunidades com perfil de geração predominantemente orgânico. Quando bem implementada, transforma resíduos em insumo agrícola de alto valor, criando um ciclo de valorização integrado às práticas produtivas locais.

Para resíduos secos recicláveis, sistemas de ponto de entrega voluntária com coleta periódica por barco ou veículo adaptado ao terreno permitem acumular material suficiente para viabilizar o transporte até centros de triagem regionais. Segundo Marcello José Abbud, a chave para o funcionamento desses sistemas em comunidades isoladas é a simplicidade operacional e o envolvimento das próprias comunidades na gestão, criando senso de pertencimento e responsabilidade sobre o sistema implantado.
O papel das comunidades na construção de soluções locais
Experiências bem-sucedidas de gestão de resíduos em comunidades isoladas têm em comum um elemento central: a participação ativa das populações no diagnóstico, no planejamento e na operação dos sistemas implantados. Por sua vez, soluções definidas externamente e impostas sem diálogo tendem a ser abandonadas rapidamente, especialmente quando dependem de insumos ou peças de reposição que não estão disponíveis localmente. O conhecimento tradicional das comunidades sobre o território e os fluxos sazonais é um ativo que precisa ser incorporado ao design das soluções.
Conforme ilustra Marcello José Abbud, comunidades ribeirinhas que adotaram sistemas comunitários de separação e compostagem, com apoio técnico inicial e autonomia progressiva na operação, alcançaram resultados consistentes sem depender de repasses contínuos de recursos externos. A sustentabilidade desses sistemas está diretamente ligada à capacidade das próprias comunidades de operá-los, adaptá-los e transmiti-los às gerações seguintes.
Políticas públicas e financiamento para territórios vulneráveis
O alcance das políticas públicas de saneamento básico nas comunidades mais isoladas do Brasil ainda é limitado por critérios de elegibilidade que favorecem projetos de maior escala. Programas federais como o Funasa e iniciativas estaduais de saneamento rural têm avançado, mas de forma insuficiente diante da magnitude do problema. Dessa forma, a criação de linhas de financiamento específicas para soluções descentralizadas de gestão de resíduos em comunidades isoladas é uma lacuna que precisa ser endereçada com prioridade.
Na perspectiva de Marcello José Abbud, garantir o direito ao saneamento básico adequado para populações rurais e ribeirinhas é tanto uma obrigação constitucional quanto uma condição para a preservação dos biomas que essas comunidades habitam e protegem. A degradação ambiental causada pelo descarte inadequado de resíduos nessas áreas afeta ecossistemas de importância global, tornando o investimento em soluções locais uma prioridade que vai muito além dos limites municipais.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez