Em países como Suécia, Holanda e Reino Unido, cada mulher dentro da faixa etária recomendada recebe uma carta ou mensagem convocando para a mamografia, com data e local já agendados, sem precisar tomar qualquer iniciativa própria. O médico radiologista, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues chama esse modelo de rastreamento organizado e destaca que o Brasil segue funcionando de forma bem diferente, dependendo quase inteiramente de que a própria mulher procure o exame por conta própria ou que um médico o solicite durante uma consulta de rotina.
Esse modelo brasileiro tem nome técnico na literatura científica: rastreamento oportunístico. E os números mostram o custo real dessa escolha estrutural. Um estudo publicado recentemente com dados do próprio sistema público de saúde revelou que a taxa de realização de mamografia em mulheres de 40 a 49 anos caiu de forma constante entre 2013 e 2020, com queda percentual anual em torno de 11%. Entender a diferença entre esses dois modelos e por que a experiência internacional aponta tão claramente para um deles ajuda a explicar um dos maiores desafios estruturais da prevenção do câncer de mama no país.
O que diferencia, na prática, um programa organizado de um oportunístico?
Em um programa organizado, o Estado identifica previamente todas as mulheres elegíveis, geralmente por meio de registros populacionais, e envia convites ativos com data e local já definidos, criando o que a literatura chama de sistema de convocação e busca ativa. Já no modelo oportunístico, como o adotado no Brasil, a realização do exame depende da iniciativa espontânea da paciente ou da lembrança de um profissional de saúde durante um atendimento por outro motivo, sem qualquer mecanismo sistemático de convite.
Segundo o Dr. Vinicius Rodrigues, essa diferença estrutural explica boa parte da disparidade de cobertura entre países. Ele cita o exemplo da Áustria, que trocou seu modelo oportunístico por um programa organizado em 2014 e viu a taxa de participação saltar de cerca de 35% para quase 95% da população elegível em poucos anos, um salto que nenhuma campanha de conscientização isolada conseguiria produzir sozinha.
Por que a diferença entre esses modelos afeta diretamente a mortalidade?
Estudos que compararam países latino-americanos, com modelo predominantemente oportunístico, a países como Canadá, Espanha, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos, com modelos organizados, encontraram associação direta entre o grau de implementação do rastreamento sistemático e as taxas de mortalidade por câncer de mama. Entidades europeias de referência em qualidade de rastreamento já recomendam formalmente a adoção de programas organizados em vez de oportunísticos, justamente pela melhor garantia de qualidade, cobertura populacional e monitoramento contínuo de resultados.

Na avaliação do médico radiologista, Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, o problema do modelo brasileiro não é a falta de tecnologia ou de mamógrafos, mas a ausência de um mecanismo sistemático que garanta que toda mulher elegível seja de fato lembrada e convidada a comparecer ao exame no momento certo, independentemente de sua proximidade com serviços de saúde ou de sua própria iniciativa pessoal.
Por que o Brasil ainda não conseguiu implementar um modelo organizado nacional?
Migrar de um sistema oportunístico para um organizado exige infraestrutura de informação robusta, capaz de identificar e localizar toda a população elegível, algo que depende de integração entre diferentes bases de dados do sistema de saúde, muitas vezes fragmentadas entre municípios e estados. Além disso, um programa organizado exige investimento contínuo em logística de convocação, sistemas de lembrete e mecanismos de busca ativa para mulheres que não comparecem ao chamado inicial, uma estrutura bem mais complexa do que simplesmente disponibilizar mamógrafos.
Para o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, essa transição é urgente, mas exige planejamento de longo prazo e vontade política sustentada, além de um único mandato de gestão. Ele reforça que estudos brasileiros já recomendam explicitamente a mudança para um modelo organizado como forma de reduzir as desigualdades regionais de acesso e melhorar a eficiência geral do sistema de rastreamento.
O que uma transição desse tipo significaria para as mulheres brasileiras?
Um programa organizado reduziria a dependência de que cada mulher, individualmente, lembre e priorize seu próprio exame em meio à rotina, transferindo parte dessa responsabilidade para o próprio sistema de saúde, que passaria a convocar ativamente cada paciente elegível. Isso tende a beneficiar justamente as mulheres com menor acesso à informação e menor proximidade com serviços de saúde, grupo que hoje concentra as maiores taxas de diagnóstico tardio no país.
O Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues esclarece que essa mudança estrutural deveria ser tratada como prioridade de política pública, e não apenas como discussão técnica restrita a especialistas em radiologia. Para ele, comparar os dois modelos deixa claro que parte significativa da diferença de mortalidade entre o Brasil e países com melhores indicadores não está na tecnologia disponível, mas na forma como essa tecnologia é organizada e oferecida à população.
A diferença entre esperar que a mulher procure o exame e convidá-la ativamente para realizá-lo pode parecer um detalhe administrativo, mas a evidência internacional mostra que se trata de uma das variáveis mais determinantes para o sucesso de qualquer programa de rastreamento populacional. Tecnologia sem organização tende a beneficiar principalmente quem já tem acesso facilitado à informação e ao sistema de saúde.
Enquanto o Brasil não migra para um modelo plenamente organizado, fortalecer a busca ativa dentro da atenção primária e simplificar o acesso ao agendamento seguem sendo passos intermediários capazes de reduzir, ainda que parcialmente, a distância entre o que a evidência científica recomenda e o que a rotina das mulheres brasileiras realmente vivencia.