Neuroarquitetura, metaverso e demência: novos caminhos para a longevidade

A realidade virtual junto ao metaverso está desempenhando um papel cada vez maior em auxiliar tanto pessoas com demência quanto seus cuidadores e familiares a lidarem com os sintomas decorrentes dessa condição neurodegenerativa.

Existem atualmente 50 milhões de pessoas vivendo com demência em todo o mundo. Espera-se que esse número dobre nos próximos 10 anos e mais do que triplique até 2050. Dessa forma, o custo global da demência deve chegar a US$ 2 trilhões até 2030 .

A demência é um termo genérico que abrange uma gama de quase 200 condições que afetam o cérebro humano. A forma mais comum de demência é a Doença de Alzheimer, evidenciada entre 60 a 80% dos casos. Apesar de décadas de pesquisa, a causa exata da demência permanece indefinida, assim como a cura.

A maioria da sociedade associa a demência à perda de memória. No entanto, as pessoas que vivem com a condição lidam com muito mais do que seus efeitos cognitivos. O impacto psicológico da demência é enorme e pode assumir a forma de ansiedade, depressão, agitação e agressividade. Esses sintomas afetam negativamente o bem-estar das pessoas que vivem com demência e tornam a condição um desafio para os familiares e cuidadores. Eles também contribuem para a prescrição excessiva de medicamentos que podem representar sérios riscos para os pacientes.

Enquanto os cientistas continuam a fazer avanços na pesquisa da demência na esperança de um avanço, a inovação tecnológica tem um papel enorme em desempenhar melhorias dos cuidados com a demência. Tal utilização da tecnologia proporciona auxílio aos pacientes, cuidadores e famílias a lidarem melhor com a doença.

A tecnologia imersiva vem revolucionando o campo da saúde há mais de uma década, pesquisadores e parceiros da Universidade de Oxford evidenciaram resultados bem sucedidos na aplicação da realidade virtual (RV) em tratar o medo de altura. Após isso, o mesmo processo foi utilizado em psicoses e mostrou-se promissor na prevenção e no tratamento de quadros demenciais.

O metaverso presente na realidade virtual (RV) está provando ser transformador para o tratamento da demência, ajudando a gerenciar os sintomas psicológicos e comportamentais da doença. Apesar dos equívocos comuns sobre a receptividade dos idosos à RV, ela já está sendo adotada em um ritmo encorajador por pacientes, profissionais de saúde e pesquisadores.

Dada a eficácia do uso do metaverso na redução da ansiedade e da depressão em pacientes com problemas de saúde mental, o uso da RV para controlar sintomas semelhantes na demência é muito bem observado. De fato, um estudo de pesquisa realizado por pesquisadores da Universidade de Kent descobriu que o uso de ambientes VR calmantes entre 8 pacientes com demência foi eficaz para melhorar o humor e o bem-estar .

A revisão publicada no Journal of Rehabilitation and Assistive Technologies Engineering (2021) constatou que a RV representa uma ferramenta promissora para promover o bem-estar em pacientes com demência, devido ao impacto benéfico no relatado de aspectos emocionais, sociais e funcionais do bem-estar. As oportunidades futuras residem na identificação de recursos especiais e na personalização do hardware/software para oferecer o máximo benefício a diferentes subgrupos da população-alvo.

Em particular, o metaverso pode ser uma ferramenta poderosa para o tratamento da demência, permitindo a digitalização de abordagens terapêuticas existentes que comprovadamente melhoram os sintomas comportamentais e psicológicos da demência (BPSD).

Uma dessas abordagens é a terapia de reminiscência, que é uma intervenção comportamental que ajuda a superar os sintomas ao desencadear memórias de longo prazo em pessoas com demência. Evidências de ensaios clínicos mostram que a terapia de reminiscência melhora a ansiedade, a agitação e o sofrimento causados ​​pela doença.

Quando integrada ao metaverso, a terapia de reminiscência poderá ser mais prática e vantajosa, possuindo:

Personalização
Durante a terapia no metaverso, os pacientes usam suas próprias memórias para estimular a recordação. Além disso, os médicos e projetistas ajustam as tipologias das plantas e dos animais virtuais de acordo com a doença do paciente. Nesse caso, o paciente pode aceitar um tratamento mais personalizado.

Envolvimento
As cenas realistas podem ajudar os pacientes a recuperar suas memórias perdidas. Em comparação com as fotos, os dispositivos avançados do metaverso proporcionam aos pacientes uma experiência mais imersiva.

Economia
Os recursos no mundo virtual são inesgotáveis, enquanto as terapias não medicamentosas no mundo físico exigem uma série de coisas para definir o cenário para a terapia de reminiscência, terapia hortícola e terapia assistida por animais. Em outras palavras, a terapia no metaverso economiza recursos financeiros aos familiares.

Conveniência
Ao contrário do custo de muitas coisas reais, os dispositivos tecnológicos que fornecem aos pacientes uma experiência imersiva são portáteis e convenientes. Nesse caso, os pacientes podem aceitar o tratamento onde e quando estiverem. A terapia realizada no metaverso faz um avanço na limitação de espaço nas atuais terapias não medicamentosas.

Neste ponto, cabe aos arquitetos, urbanistas e designers utilizarem os conhecimentos propostos pela Neurociência a fim de moldar o metaverso em função de tais tratamentos não farmacológicos. O papel da escuta, da compreensão, da empatia, do diálogo e do contato com idosos saudáveis e com quadros demenciais – em conjunto com familiares, cuidadores dentre outros profissionais de saúde – é de vital importância para a realização de projetos significativos no metaverso.

De fato, a tecnologia propõe-se muitas vezes a retirada dos seres humanos do processo de conceber os espaços presentes no metaverso. No entanto, a habilidade e expertise do projetista em estar atento aos detalhes, conseguir transcender a essência individual, histórica e valorável do público alvo – no caso, os idosos – ao metaverso os tornam únicos e insubstituíveis.

Caberá aos arquitetos e demais projetistas a se especializarem cada vez mais tanto na Neuroarquitetura quanto na Inteligência Artificial. Apenas assim os projetistas irão se manter capacitados em auxiliar e inovar cada vez mais o uso da tecnologia na saúde em prol da Longevidade humana.

Ainda é cedo, mas as descobertas iniciais neste espaço de tempo mostram uma promessa significativa para a tecnologia imersiva ser um divisor de águas na forma de prevenir e tratar a demência.

Claro que uma série de desafios e aprimoramentos precisam ser superados antes que essas aplicações sejam difundidas – novos aprendizados, abertura a novas abordagens e trabalho multidisciplinar passam a ser fundamentais nesta trajetória!

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