Após anos de prejuízos bilionários, a empresa desliga a plataforma de mundos virtuais entre março e junho de 2026 e muda o foco estratégico
Em 2021, quando ainda se chamava Facebook, a empresa de Mark Zuckerberg trocou de nome para Meta e apostou bilhões de dólares na ideia de que o futuro da interação humana aconteceria dentro de mundos virtuais. O Horizon Worlds nasceu como o coração dessa visão, prometendo reuniões, jogos e vida social dentro de óculos de realidade virtual. Quatro anos depois, esse projeto chega ao fim. A companhia confirmou oficialmente, em 17 de março de 2026, que vai desligar a plataforma, encerrando um dos apostas mais caras e mais comentadas da história recente da tecnologia. Muita gente que acompanhou o lançamento do metaverso em 2021 quer entender agora o que exatamente muda, quando isso acontece e para onde vai o dinheiro que antes era investido nesses mundos virtuais.
Como a Meta chegou à decisão de encerrar o Horizon Worlds
O anúncio de março não veio de surpresa. Nos últimos dois anos, a Meta já vinha dando sinais claros de recuo: demissões no setor de realidade virtual, encerramento de estúdios que produziam jogos para VR e fechamento de salas de reunião dentro do metaverso logo no início de 2026. O Reality Labs, divisão responsável por esses projetos, acumulou prejuízos crescentes ao longo dos anos, e a decisão de encerrar o Horizon Worlds é descrita como o ponto final de um processo que já estava em andamento havia bastante tempo.
Os números ajudam a explicar a mudança de rumo. Segundo reportagem da Euronews, o relatório de resultados do quarto trimestre mostrou que o negócio de realidade virtual da Meta perdeu 19,1 bilhões de dólares no ano, sendo 6,2 bilhões só no último trimestre. Ainda no início de janeiro, a companhia já havia demitido 10% dos cargos ligados ao Reality Labs, entre engenheiros de dados, desenvolvedores de software e criadores de jogos.
Antes mesmo do anúncio final, a Meta havia tentado outros caminhos para salvar o projeto. Em fevereiro de 2026, a empresa anunciou que o Horizon Worlds deixaria de ser limitado aos óculos Quest e passaria a funcionar também em smartphones, buscando um público mais amplo do que o restrito universo dos usuários de realidade virtual. Uma vice-presidente da companhia chegou a afirmar, em comunicado, que a Meta estava em posição forte para oferecer jogos sociais em larga escala conectando essas experiências a bilhões de usuários das redes sociais do grupo. Essa reformulação, no entanto, não foi suficiente para reverter o quadro de prejuízos.
Relatos anteriores, como o publicado pelo InfoMoney ainda no fim de 2025, já indicavam que executivos discutiam cortes de até 30% no orçamento do grupo responsável pelo metaverso, incluindo o Horizon Worlds e a unidade de realidade virtual Quest. O projeto também vinha sendo criticado por investidores, que o enxergavam como um dreno de recursos, e por órgãos reguladores preocupados com privacidade e segurança de crianças dentro dos mundos virtuais.
O cronograma de desligamento e o que deixa de funcionar
A partir de 31 de março de 2026, o Horizon Worlds deixou de aparecer na loja dos headsets Meta Quest, assim como o aplicativo Events. Os ambientes de interação Horizon Central, Events Arena, Kaiju e Bobber Bay foram removidos da plataforma nessa mesma data. Foi o primeiro passo prático da retirada, ainda deixando o aplicativo ativo para quem já o tinha instalado.
A etapa final ocorreu em 16 de junho de 2026, quando o aplicativo foi removido por completo dos headsets, deixando de funcionar em realidade virtual. Esse foi o encerramento definitivo do produto que, em 2021, havia sido apresentado como o carro-chefe da nova identidade da empresa. Para quem investiu tempo construindo espaços, avatares ou eventos dentro da plataforma, o desligamento representa a perda de todo esse conteúdo, já que não há indicação de migração dos dados para outro serviço da companhia.
Vale lembrar que esse desfecho contrasta com projeções de mercado que ainda enxergam crescimento para o setor de metaverso como um todo. Um levantamento da consultoria Business Research Insights estima que o mercado global de metaverso, avaliado em 201 bilhões de dólares em 2026, pode chegar a mais de 6 trilhões de dólares até 2035, impulsionado por avanços em realidade virtual, aumentada e blockchain. Ou seja, o fim do Horizon Worlds não significa o fim do conceito de metaverso, mas sim a saída de um dos seus principais apostadores originais.
Para onde vai o investimento que antes era do metaverso
A mudança de foco da Meta já está consolidada em duas frentes principais. A primeira é a inteligência artificial, incluindo a busca declarada por superinteligência, definida pela própria empresa como um dos objetivos mais ambiciosos de sua história recente. A segunda é o segmento de óculos inteligentes, no qual a companhia já se posicionou como referência com a linha Ray-Ban Meta, criada em parceria com a marca de óculos.
Essa migração de prioridades chama atenção porque segue o movimento de outras gigantes de tecnologia, que também vêm apostando em óculos inteligentes e dispositivos vestíveis como o próximo grande produto de consumo, depois de mais de uma década de domínio do smartphone. A lição que fica desse processo é estratégica: uma visão de futuro, por mais ambiciosa que seja, precisa de validação real de mercado para se sustentar ao longo do tempo, algo que o metaverso de consumo, ao menos na forma pensada em 2021, não conseguiu comprovar.
Passados cinco anos desde o anúncio que mudou o nome da empresa, o episódio do Horizon Worlds se tornou um estudo de caso sobre os riscos de apostar todas as fichas em uma única tecnologia antes que ela amadureça junto ao público. A Meta segue existindo, mas o metaverso que deu origem ao seu nome atual perdeu o lugar central que ocupava no discurso da companhia. Resta acompanhar se os óculos inteligentes e a inteligência artificial vão conseguir entregar o retorno que os mundos virtuais não trouxeram, e se outras empresas do setor vão repetir, ou evitar, o mesmo caminho percorrido pela gigante de Zuckerberg.
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