Guitarrista pediu à inteligência artificial da Meta que mostrasse a capa de “The Game”, de 1980, mas recebeu uma imagem com cinco integrantes e músicos pouco reconhecíveis; episódio virou crítica à expansão da IA e aos impactos de grandes data centers
O guitarrista Brian May, do Queen, transformou uma experiência curiosa com a Meta AI em uma crítica contundente ao avanço da inteligência artificial. O músico contou que pediu à ferramenta da Meta que mostrasse como era a capa de The Game, álbum lançado pela banda em 1980, mas recebeu uma representação bastante diferente da original. (The Independent)
A imagem produzida pela IA apresentava cinco integrantes, apesar de a formação clássica retratada na capa original ser composta por Freddie Mercury, Brian May, Roger Taylor e John Deacon. Além do integrante extra, os personagens gerados tinham pouca semelhança com os quatro músicos. (Far Out Magazine)
May publicou o resultado em sua conta no Instagram e inicialmente adotou um tom irônico para comentar a falha. A postagem, feita em 10 de agosto, acabou ganhando repercussão internacional nesta quarta-feira, 12 de agosto de 2026, após veículos britânicos destacarem tanto o erro da Meta AI quanto as críticas posteriores do guitarrista à tecnologia. (Instagram)
Meta AI cria cinco integrantes para banda que tinha quatro
A capa original de The Game é visualmente simples e bastante conhecida pelos fãs do Queen. Ela apresenta lado a lado os quatro integrantes da banda usando jaquetas de couro.
Foi justamente essa imagem que May esperava encontrar ao fazer sua solicitação à Meta AI. O resultado, entretanto, acrescentou uma quinta pessoa e produziu representações que dificilmente poderiam ser identificadas como os integrantes do grupo. (Far Out Magazine)
O erro chama atenção porque não envolvia a criação de uma cena completamente inédita. O músico havia solicitado à ferramenta informações visuais relacionadas a uma obra conhecida da cultura pop.
O episódio também mostra uma diferença importante entre sistemas generativos e mecanismos tradicionais de busca. Uma IA generativa pode produzir uma nova representação a partir dos padrões aprendidos em seu treinamento, em vez de simplesmente recuperar uma reprodução fiel da imagem solicitada.
Brian May ironiza resultado da inteligência artificial
Em sua publicação, May começou tratando o resultado com ironia. Depois, porém, mudou o tom e passou a utilizar o episódio como ponto de partida para uma crítica mais ampla.
O músico questionou se sistemas capazes de cometer erros desse tipo deveriam assumir um papel cada vez maior na sociedade e afirmou acreditar que o custo da rápida expansão da inteligência artificial pode ser alto demais. (The Independent)
A crítica não ficou restrita à capacidade técnica da Meta AI. May direcionou boa parte de sua preocupação para a infraestrutura física necessária para sustentar o crescimento dos modelos de inteligência artificial.
Esse aspecto transformou uma postagem inicialmente curiosa sobre o Queen em uma manifestação sobre tecnologia, energia, território e impactos ambientais.
Data centers entram no centro da crítica
Brian May criticou especialmente a construção de grandes data centers destinados a sustentar sistemas de inteligência artificial. Segundo o guitarrista, o Reino Unido deveria impedir a expansão dessas instalações antes que seus impactos se tornem maiores. (bdnews24.com)
Data centers abrigam servidores, equipamentos de armazenamento e infraestrutura de rede necessários para executar serviços digitais. Com o crescimento da IA generativa, empresas de tecnologia têm aumentado os investimentos em instalações capazes de operar grandes quantidades de chips especializados.
Essas estruturas podem consumir quantidades significativas de eletricidade e também demandar sistemas de refrigeração. O impacto ambiental concreto, porém, varia conforme fatores como matriz elétrica, localização, tecnologia de resfriamento e disponibilidade de água.
Um estudo acadêmico divulgado em agosto de 2026 sobre data centers de IA nos Estados Unidos concluiu justamente que os impactos não dependem apenas do projeto de cada instalação, mas também das características dos sistemas locais de energia, água e uso do solo. (arXiv)
Guitarrista faz apelo contra expansão da infraestrutura
Na manifestação, May pediu uma intervenção para impedir novos projetos de data centers no Reino Unido. A crítica foi reproduzida por diferentes veículos britânicos nesta quarta-feira. (bdnews24.com)
O posicionamento coloca o guitarrista dentro de uma discussão que ultrapassa o setor musical. Comunidades, pesquisadores, empresas e governos discutem como equilibrar os benefícios econômicos da expansão da inteligência artificial com a necessidade de energia, água e infraestrutura.
May, portanto, utilizou o resultado equivocado envolvendo Freddie Mercury e o Queen como uma espécie de exemplo simbólico para questionar se os benefícios prometidos pela tecnologia justificam todos os custos associados à sua expansão.
Freddie Mercury aparece de forma pouco reconhecível
A presença de uma representação de Freddie Mercury, morto em 1991, acrescentou outro elemento de interesse ao episódio.
Segundo as reportagens, não apenas havia uma quinta pessoa na imagem, como os personagens apresentavam pouca semelhança com os integrantes reais do Queen. (Far Out Magazine)
O caso também toca indiretamente em uma discussão crescente na indústria do entretenimento: a utilização de inteligência artificial para produzir representações de artistas conhecidos, inclusive daqueles que já morreram.
No episódio de May, entretanto, é importante diferenciar essa questão do que realmente aconteceu. Não se tratou de uma campanha da Meta recriando Freddie Mercury nem de uma imagem oficial do Queen produzida pela empresa. Foi uma geração feita pela Meta AI a partir de uma solicitação do próprio guitarrista.
IA está cada vez mais presente no entretenimento
A discussão ocorre em um período no qual ferramentas generativas estão se tornando comuns na produção de imagens, músicas, vídeos e outros conteúdos.
Na indústria musical, a tecnologia já permite criar vozes sintéticas, separar instrumentos, auxiliar na composição e gerar imagens promocionais. Ao mesmo tempo, artistas e gravadoras discutem direitos autorais, remuneração e utilização não autorizada de identidade e voz.
O caso envolvendo Brian May chama atenção justamente porque parte da crítica veio de um músico cuja carreira atravessou diferentes revoluções tecnológicas na indústria fonográfica.
Agora, a questão não envolve apenas novas maneiras de gravar ou distribuir música, mas ferramentas capazes de produzir novos conteúdos a partir de grandes volumes de dados.
Erro mostra limites das ferramentas generativas
A imagem de The Game também funciona como exemplo de uma limitação conhecida dos sistemas generativos: uma resposta visualmente convincente não é necessariamente factual.
Modelos de inteligência artificial podem criar imagens com aparência realista e, ainda assim, acrescentar pessoas, modificar características ou apresentar elementos inexistentes.
Esse comportamento é especialmente relevante quando usuários esperam que a ferramenta forneça uma reprodução historicamente correta.
No caso do Queen, o erro é facilmente percebido por quem conhece a banda. Em outros contextos, informações incorretas podem ser muito menos evidentes.
Episódio repercute no entretenimento internacional
A manifestação de May ganhou destaque em veículos internacionais em 12 de agosto. O The Independent destacou a indignação do músico com a representação produzida pela Meta AI, enquanto outras publicações enfatizaram suas críticas aos data centers. (The Independent)
O próprio site oficial de Brian May também registrou a manifestação em uma publicação intitulada “We Actually Don’t Need AI”, reforçando que a crítica não se limitou a uma reação reproduzida pela imprensa. (Brian May Official)
A repercussão mostra como erros aparentemente simples de inteligência artificial podem rapidamente alimentar discussões muito maiores quando envolvem figuras conhecidas e obras culturalmente relevantes.
Debate vai além da capa do Queen
O episódio começou com uma pergunta aparentemente banal: como a Meta AI representaria uma capa de disco lançada há mais de quatro décadas?
O resultado com cinco integrantes em vez de quatro acabou servindo para Brian May questionar não apenas a qualidade das ferramentas atuais, mas também o caminho escolhido pela indústria tecnológica. (Far Out Magazine)
Para empresas de inteligência artificial, casos assim evidenciam o desafio de tornar modelos generativos mais confiáveis. Para artistas, reforçam preocupações sobre como obras, imagens e identidades podem ser reinterpretadas por algoritmos.
E, para o público, fica uma distinção cada vez mais importante: sistemas generativos são capazes de criar imagens impressionantes, mas isso não significa que devam ser tratados automaticamente como fontes precisas de informação histórica.
A imagem equivocada de Freddie Mercury e seus companheiros pode parecer apenas uma curiosidade tecnológica. Para Brian May, porém, ela serviu como ponto de partida para uma pergunta muito maior: quais benefícios e quais custos a sociedade está disposta a aceitar enquanto a inteligência artificial ocupa cada vez mais espaço na cultura e no cotidiano?
Fontes principais: The Independent — reportagem de 12 de agosto de 2026 · Far Out Magazine — repercussão e críticas aos data centers · Publicação de Brian May no Instagram.