O Brasil começou a estruturar as condições técnicas e regulatórias para receber operações comerciais com aeronaves elétricas de pouso e decolagem vertical, conhecidas pela sigla eVTOL. Uma reunião realizada em 21 de setembro de 2026 reuniu representantes do Ministério de Portos e Aeroportos, da Secretaria Nacional de Aviação Civil, da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) e da Eve Air Mobility.
De acordo com o Ministério de Portos e Aeroportos, as primeiras operações comerciais podem começar em 2028. A previsão, contudo, está condicionada à conclusão do processo de certificação da aeronave e ao avanço de uma série de medidas que ainda precisam ser coordenadas entre autoridades, fabricantes e operadores.
Operações dependem de certificação e estrutura em terra
Apesar de serem frequentemente associadas à ideia de “carros voadores”, as aeronaves eVTOL seguem as regras da aviação civil. Para transportar passageiros comercialmente, precisam cumprir requisitos de certificação, segurança operacional e integração ao controle do espaço aéreo. Por isso, a chegada do novo modal não depende somente da fabricação dos veículos elétricos.
Entre os pontos em avaliação estão a criação de vertiportos, a instalação de sistemas de recarga e a definição de procedimentos para pousos e decolagens em áreas urbanas e regionais. Também será necessário estabelecer protocolos de segurança, incluindo medidas de prevenção e combate a incêndios, além de regras para a operação próxima a aeroportos, edificações e outros meios de transporte.
Em orientação técnica sobre o tema, a Agência Nacional de Aviação Civil destaca que a infraestrutura para eVTOLs exige acompanhamento contínuo. A agência considera que a indústria ainda está em fase emergente e reúne projetos com características diferentes, o que dificulta a adoção de um modelo único para instalações e operações.
Conexões entre cidades e aeroportos
Uma das aplicações previstas para os eVTOLs é o deslocamento entre regiões metropolitanas, centros urbanos e aeroportos. A estimativa apresentada no encontro do governo considera que uma viagem entre a Zona Sul de São Paulo e o Aeroporto Internacional de Guarulhos, atualmente realizada de carro em um intervalo de uma a duas horas, poderia levar cerca de 12 minutos com uma aeronave desse tipo.
O exemplo ajuda a explicar o potencial da mobilidade aérea avançada, mas não representa uma garantia de tempo de viagem ou de disponibilidade do serviço. A duração real dependerá de fatores como rota autorizada, condições meteorológicas, localização dos vertiportos, procedimentos de embarque e integração com a circulação aérea existente.
As possíveis aplicações incluem transporte executivo, conexões aeroportuárias, turismo e deslocamentos regionais. A adoção em escala maior, porém, dependerá de custos operacionais, preço para os passageiros, disponibilidade de pontos de recarga, capacidade da rede elétrica e aceitação da população nas áreas que receberão as operações.
Propulsão elétrica traz novos desafios tecnológicos
A aeronave em desenvolvimento pela Eve Air Mobility utiliza propulsão elétrica e foi apresentada ao governo como um veículo sem emissões operacionais locais. Segundo as informações discutidas na reunião, o projeto também foi concebido para apresentar nível de ruído inferior a 60 decibéis durante o cruzeiro.
Essas características podem favorecer o uso dos eVTOLs em ambientes urbanos, onde poluição atmosférica e ruído são fatores relevantes para a aceitação de novos serviços de mobilidade. Ainda assim, os impactos ambientais e urbanos dependerão da origem da eletricidade utilizada na recarga, do volume de voos, das rotas escolhidas e da forma como os vertiportos serão integrados ao território.
O processo de certificação do modelo EVE-100 é acompanhado pela Anac. O Relatório de Gestão e Atividades da agência registra informações relacionadas ao acompanhamento dessa certificação, que é uma das etapas necessárias antes da operação comercial.
Previsão para 2028 ainda pode mudar
A projeção de início das operações em 2028 deve ser entendida como uma possibilidade associada ao cumprimento de etapas técnicas e regulatórias, e não como uma data definitiva de lançamento. Certificação, infraestrutura, segurança e integração com o espaço aéreo podem influenciar o cronograma.
O trabalho iniciado pelo governo mostra que a introdução dos eVTOLs no Brasil exige uma articulação ampla. Além dos órgãos de aviação, será preciso coordenar fabricantes, aeroportos, empresas aéreas, operadores privados, fornecedores de energia, desenvolvedores de software e administrações urbanas.
Se os requisitos forem atendidos, as aeronaves elétricas poderão inaugurar uma nova camada de mobilidade entre cidades e aeroportos. Até lá, o principal desafio será transformar uma tecnologia ainda em desenvolvimento em um serviço certificado, seguro e integrado à infraestrutura urbana brasileira.